Medicina Integrativa e cancro da mama: a distinção que este estudo não faz, mas que importa conhecer
Uma leitura clínica rigorosa do estudo publicado na JAMA Network Open: o que os dados mostram e o que não permitem concluir
- Março 2026
No início do mês, a JAMA Network Open publicou um estudo de Ayoade e colaboradores, que analisou a associação entre o uso de terapias complementares e alternativas e a sobrevivência em mais de dois milhões de mulheres com cancro da mama. Nos dias seguintes, o estudo circulou amplamente, frequentemente com uma leitura redutora: medicina alternativa piora os resultados oncológicos.
O objetivo deste artigo é fazer uma leitura mais cuidadosa dos dados. Importa perceber o que o estudo efetivamente demonstra, onde estão as suas limitações metodológicas, e porque é que os resultados não podem ser extrapolados diretamente para modelos de medicina integrativa clínica estruturada.
O que o estudo analisou e o que encontrou
Trata-se, concretamente, de um estudo de coorte retrospetivo que utilizou dados do National Cancer Database norte-americano, cobrindo mulheres diagnosticadas com cancro da mama entre 2011 e 2021. A amostra incluiu 2 157 219 mulheres, com idade mediana de 62 anos. Os investigadores classificaram as participantes em quatro grupos. O primeiro recebeu terapêutica tradicional exclusiva: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapêutica endócrina, imunoterapia. O segundo recebeu apenas CAM (complementary and alternative medicine, em português medicina complementar e alternativa). O terceiro combinou terapêutica tradicional e CAM. O quarto grupo não recebeu qualquer tratamento. O desfecho principal foi a sobrevivência global aos cinco anos, com ajuste para múltiplos fatores de prognóstico e contexto.
Os resultados foram consistentes. O grupo com terapêutica convencional exclusiva apresentou a maior taxa de sobrevivência aos cinco anos, de 85,4%. Por seu lado, o grupo que usou apenas CAM apresentou uma taxa de sobrevivência de 60,1%, com um risco de mortalidade ajustado 3,67 vezes superior. Já o grupo que combinou terapêutica convencional e CAM apresentou mortalidade ajustada 1,45 vezes superior. Por fim, o grupo sem qualquer tratamento apresentou uma taxa de sobrevivência de 47,8%.
A dimensão amostral é considerável. Além disso, os dados provêm de um registo representativo, e o modelo estatístico ajusta para variáveis socioeconómicas e clínicas relevantes. A mensagem central do estudo, do ponto de vista da segurança, é difícil de ignorar: substituir tratamentos oncológicos convencionais por CAM está associado a uma sobrevivência semelhante à ausência total de tratamento.
A limitação que mais consequências tem para a leitura dos dados
No National Cancer Database, CAM é definido como ‘terapia administrada por pessoal não médico’. Trata-se de uma definição administrativa que não distingue tipo de intervenção, racional fisiológico, qualidade dos produtos, nem formação de quem prescreve. Nesta categoria, práticas com evidência para determinados desfechos clínicos, como acupunctura para controlo sintomático ou intervenções mente-corpo, surgem agrupadas com práticas sem qualquer base científica. Não é possível, a partir destes dados, avaliar o impacto de uma intervenção integrativa específica, nem de um programa estruturado de medicina integrativa e cancro da mama quando usado como complemento ao tratamento convencional.
Importa notar que os próprios autores reconhecem este ponto na discussão. Além disso, citam revisões que demonstram benefícios de abordagens complementares em parâmetros como fadiga, dor, qualidade do sono e qualidade de vida em oncologia, referindo que estas estão progressivamente a ser incorporadas em guidelines internacionais. O problema que o estudo identifica não é, portanto, o uso de terapias complementares, mas sim a substituição de tratamentos convencionais eficazes por essas terapias.
O que o grupo de combinação nos revela, e o que isso muda na interpretação
Neste contexto, há um dado no estudo que merece particular atenção. No grupo que combinou terapêutica convencional e CAM, a utilização de radioterapia e terapêutica endócrina foi substancialmente inferior à do grupo com tratamento convencional exclusivo. Em estádio II, a radioterapia foi usada em 59,5% das doentes no grupo convencional e em apenas 36,6% no grupo de combinação; a terapêutica endócrina em 65,2% versus 40,7%, respetivamente.
Ou seja, na prática, “CAM combinada com tratamento convencional” significou frequentemente “tratamento convencional incompleto com adição de CAM”. E isto é bastante diferente do que dizer “tratamento convencional completo com suporte integrativo estruturado”. Por essa razão, esta distinção é fundamental para interpretar o excesso de mortalidade observado neste grupo, porque o que o estudo mede não é o efeito de adicionar CAM a um tratamento convencional completo, mas o efeito de substituir ou omitir componentes essenciais desse tratamento.
Esta distinção metodológica torna algumas afirmações que circularam nas redes sociais após a publicação do estudo, como “a medicina alternativa mata” ou “taxas de mortalidade mais elevadas com terapias alternativas”, incorretas e precipitadas. Afirmações assim têm sido frequentemente feitas sem referência às limitações que os próprios autores identificam. O estudo não demonstra que terapias complementares são prejudiciais por si mesmas; demonstra sim que substituir tratamentos oncológicos essenciais por intervenções sem enquadramento clínico está associado a pior sobrevivência. São conclusões com implicações muito diferentes.
CAM avulsa e Medicina Integrativa estruturada não são equivalentes
Este estudo tem uma consequência relevante para a prática clínica: a necessidade de distinguir dois modelos que frequentemente são confundidos. Com efeito, o que o estudo mede é o uso avulso de CAM, muitas vezes em substituição ou em detrimento de componentes essenciais do tratamento oncológico, sem evidência de avaliação clínica estruturada, sem plano de intervenção documentado, e sem coordenação com a equipa oncológica.
Um modelo de Medicina Integrativa clínica estruturada assenta numa lógica diferente, que não se aplica apenas a quadros oncológicos. Em qualquer contexto clínico, a avaliação precede a intervenção. As abordagens complementares servem para otimizar o terreno fisiológico, gerir sintomas, modular a inflamação e apoiar a qualidade de vida, sempre em articulação com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento convencional. A análise de interações, contraindicações e segurança faz parte do raciocínio clínico. O que muda consoante o quadro clínico são as prioridades terapêuticas, mas a lógica de integração mantém-se. E este estudo não avaliou este modelo de intervenção.
O QUE ESTE ESTUDO PERMITE COMUNICAR COM RIGOR
Substituir tratamentos com eficácia comprovada por terapias alternativas está associado a piores resultados: no cancro da mama, os dados são robustos neste ponto, e a mensagem estende-se a qualquer quadro clínico em que haja tratamento convencional indicado.
As decisões sobre uso de abordagens complementares devem ser discutidas com a equipa clínica responsável, tanto pela segurança quanto porque, como o estudo sugere, muitos pacientes tomam estas decisões sem comunicar aos profissionais que os acompanham.
Importa distinguir o uso informal e não coordenado de terapias alternativas do acompanhamento por profissionais com formação sólida em Medicina Integrativa, capazes de avaliar interações, definir prioridades clínicas e trabalhar em articulação com as especialidades envolvidas, independentemente do quadro clínico em causa.
Paradoxalmente, a Medicina Integrativa clínica estruturada parte de um princípio que este estudo reforça: a qualidade da avaliação clínica e a articulação com o tratamento convencional são inegociáveis. O raciocínio clínico, a análise de interações e a coordenação com a equipa de saúde são exatamente o que distingue um modelo integrativo sólido do uso avulso de terapias sem enquadramento clínico. Reconhecer essa diferença é o ponto de partida para uma integração clínica que acrescenta valor, seja em oncologia ou em qualquer outro contexto clínico.
A articulação entre uma avaliação clínica estruturada e o tratamento convencional é um dos princípios centrais do Método Clínico Integrativo, uma abordagem que parte do raciocínio clínico individualizado e não de protocolos aplicados independentemente do contexto de cada pessoa.
Referências
- Ayoade OF, Caturegli G, Canavan ME, et al. Use of complementary and alternative medicine in the management of breast cancer. JAMA Network Open. 2026;9(3):e260337. doi:10.1001/jamanetworkopen.2026.0337

Dra. Mariana Fidalgo
Consultora Clínica Integrativa | Criadora do Método Clínico Integrativo